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Fernando de Noronha gastando pouco

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Todos sabem que a finalidade deste site é relatar as viagens que nós fazemos de carro. Só que vou abrir o precedente agora. Sempre que viajarmos e tivermos informações úteis pra compartilhar vou colocar por aqui, independentemente do meio escolhido pra isso. Então confira agora o bônus track da nossa viagem ao Nordeste: Fernando de Noronha.

[sancho]

03/01 - 8º dia » de Río Gallegos/ARG a Ushuaia/ARG

Dia de Fim do Mundo hoje. De boa, saímos quase 11h da manhã do hotel pra voltar a Ruta 3, sentido Ushuaia. Por bobeira minha, acreditei que a perna de Río Gallegos a Ushuaia fosse menor, uns 400Km, quando na verdade era maior, uns 550Km. Não bastasse isso, daqui até lá há dois trâmites alfandegários, já que Argentina e Chile dividem a administração das províncias na Ilha Grande da Terra do Fogo. Sairemos de Argentina, entraremos e sairemos do Chile e voltaremos a Argentina. Parte do trecho a ser rodado não será em asfalto, e sim em rípio, que é um tipo de pedra ou cascalho, que reduz a média horária sensivelmente. Ou seja, dia longo e já começamos atrasados.

 [fachada do hotel]

[liberando nossa bagagem]

[arquitetura]

De Río Gallegos até a divisa com o Chile são pouco mais de 60Km. Eu já havia lido que esse trâmite na entrada do Chile era demorado, então já fomos cientes de que perderíamos mais ou menos uma hora nessa brincadeira. O procedimento é composto de seis etapas. O preechimento dos dados pessoais numa ficha; a apresentação da ficha ao agente da alfândega, que irá registrar em sistema; o cadastro dos dados junto a Polícia Federal chilena; a saída formal do território argentino; o registro do veículo junto as autoridades chilenas; e a declaração para as autoridades sanitárias de que não estamos entrando naquele país com produtos orgânicos, sujeito a multa. Após tudo isso, liberaram nossa entrada no Chile.


[procedimentos aduaneiros]




Em território chileno, rodamos mais uns 70Km até chegar a balsa para atravessar o estreito de Magalhães. Segundo um agente da empresa que faz a travessia, há ferry a cada hora pra atravessar, mas li fora daqui que eles passam de duas em duas horas. Para maiores informações, acesse a página da empresa (http://www.tabsa.cl/portal/index.php/en/services/57-primera-angostura-crossing), que menciona os valores atuais da travessia. Pagamos $ 278,00, algo em torno de R$ 105,00 para uma travessia de 20 minutos. Não importa quantos passageiros, esse valor é definido por veículo e é pago num guichê internamente. O turista pode ficar na sala de passageiros, onde tem cadeiras e tv com dvd, ou ir ao deck pra ter uma visão melhor do que está ao redor.

[balsa atravessando o estreito de Magalhães]



Agora, sim, Terra do Fogo. Ainda em território chileno, rodamos cerca de 35Km até a transição de piso, de asfalto para rípio. Um pouco antes dessa transição, uma parada pro almoço. Lá encontramos uma família brasileira, Jadiel, Mercês e sua filha, que também tinha saído de Curitiba, porém estavam voltando do Ushuaia. Trocamos uma ideia com eles sobre as impressões a estrada até aqui, preço dos produtos, situação do rípio e por aí vai. Dividimos a mesa na hora do almoço, o que foi bem agradável. Nosso grupo pediu cordeiro patagônico, com purê de batata. Após o almoço, nos despedimos da família e fomos ao encontro do rípio.

Rípio
Eu havia lido anteriormente muita coisa sobre rípio e estava ansioso por dirigir sobre ele. Tenho que dizer que foi mais tranquilo do que esperava, pois achei que a velocidade que a gente ia desenvolver ia girar em torno de 40Km/h. Conseguimos por muitas vezes manter uns 75Km/h, o que não é de todo mal. Achei também que a pedra que compõe o rípio fosse maior e mais solta. Pode até ser que a gente encontre em outro lugar o rípio com essa característica, mas aqui na Terra do Fogo, as pedras do caminho eram menores. Se o motorista mantiver o traçado dos outros veículos, ele consegue andar com segurança mantendo uma boa velocidade. Mas atenção, não vacile pois o rípio pode ser traiçoeiro, principalmente nas curvas. Ouvimos relatos de motoristas que nos encheram de cuidado ao pegar essa estrada.

 [rodando no rípio]

O trecho de rípio é de cerca de 100Km e é bem deserto, sem postos ou telefones de SOS. Como sempre vale a dica de não vacilar com o combustível. Não deixe baixar da metade do tanque. Mantenha sempre cheio. Jadiel nos disse que sofreu com pane seca, então fique ligado.

Uns 100Km de rípio e, pouco antes da divisa, paramos num restaurante chileno pra ir no banheiro e comprar algumas besteiras. O primeiro contato com um chileno não foi bom. A mulher do restaurante, ficou revoltada porque a Angélica brincou dizendo que queria o chocolate mais barato, dentre os que havia na vitrine. A dona ficou invocada, talvez acreditando que a gente queria que o valor do chocolate, ou dos produtos em geral, fosse mais em conta e nos deu um belo sermão. Falou que não tinha como ser mais barato, pois o custo do produto pra chegar até ali é altíssimo. Ok. Falou que a gente era turista então não tinha porque reclamar de preço alto, pois a gente sabe que vai ter que gastar bem numa viagem. Discordo. Falou que o Brasil é um país caro, então não podemos dizer que o Chile também o é. Não sei, já que a minha referência para o meu país é como a dela pro Chile. Ainda, por deboche, fez a gente pagar pelo uso do banheiro. Como achei que ela tava bem alterada e talvez tenha descontado tudo o que tava engasgado na gente, pagamos numa boa. Acho que tem total direito de reclamar e impor a vontade dela dentro do estabelecimento dela. Só que quem lida com cliente, e que depende desse cliente pra manter seu negócio, não pode hostilizar seu público gratuitamente. Achei que faltou bom humor a essa senhora. O bom humor que vem se mostrando sempre presente ao longo da viagem, por vários lugares por onde andamos. Até pelo que vimos sendo demonstrado pelos agentes de imigração chilena hoje cedo. Logo depois encontramos a aduana chilena. Dessa vez, mais rápido. Cerca de 20 minutos para formalizar a saída do Chile. Mais adiante, em separado, chega a vez de formalizar a reentrada na Argentina. Jogo rápido, 15 minutos de carimbos e assinaturas, e voltamos a pegar a Ruta 3. Vale destacar que até aqui, desde o início da viagem, não fomos parados por bloqueio policial nas estradas e que o seguro Carta Verde só nos foi solicitado uma vez, quando estávamos entrando no Uruguai pelo Chuí.

Pela Ruta 3, no caminho até Ushuaia, uma passada rápida pela outra grande cidade argentina na Terra do Fogo, que é Rio Grande. Pareceu ser bem agradável e movimentada. Isso era mais de 20h e ainda tinha mais de 200Km até o destino. O fato de escurecer bem mais tarde nessa região, engana a gente, fazendo parecer que ainda é cedo.

Cordilheira dos Andes
Desde a nossa entrada em território argentino, lá por Buenos Aires, a paisagem do interior não tinha sido muito diferente. Tudo muito plano, sem nada no horizonte e falésias próximas ao mar em alguns trechos. Ao adentrar a Terra do Fogo, chega enfim a hora de encontrar o monstro: a cordilheira dos Andes. A imponência da cordilheira é para se respeitar realmente. Ao longe, quando percebemos o primeiro sinal de que a paisagem seria alterada, todo o grupo foi ficando ansioso. E que alteração... A medida em que a gente se aproximava, cada curva fazia descortinar um panorama espetacular. Surgiram momentos de reflexão, de contemplação, de inquietude. Com um monstro à sua frente, não há o que falar. Só reconhecer sua superioridade e respeitá-lo. Perto do Lago Escondido, uma parada para o motorista também ter o privilégio de visualizá-lo com a calma que lhe é merecida. Era o momento de agradecer por tudo o que vivemos até aqui e reconhecer a generosidade da natureza.

 [primeiro contato com O Monstro]

Após o subir e descer da serra, margeando as montanhas, enfim chegamos ao nosso destino. Seis dias depois de deixar o Brasil, exatos 5000Km de distância de casa, cumprimos nosso objetivo. A chegada ao fim do mundo, particularmente, é a realização de um sonho que pude compartilhar e ter o apoio dos meus companheiros de viagem, Angélica, Vitor e Mel.

 [contemplação]

Chemos ao Ushuaia às 23:30 da noite, então já deu pra ver que o ziriguidum demora. 12 horas pra vencer pouco mais de 500Km. Porém, em meio a aduanas, balsa e rípio, a jornada torna-se longa e cansativa. Chegando a cidade, a ficha cai. É hora de lidar com a realidade. Assim como fizemos nas outras cidades, no Ushuaia não foi diferente em relação a reserva de hospedagem. Problema é que a cidade é extremamente turística e o período que estamos é considerado de altíssima temporada. Então fomos vendo a enrascada que a gente tava se metendo. Paramos em pelo menos 10 hospedarias, entre hostel e hotéis, e nada de vagas. Tudo cheio. Em alguns lugares já havia placas na porta indicando isso. O tempo foi passando, com ele a fome, o sono e a possibilidade iminente de não conseguir um lugar aconchegante pra dormir. E o pior, com o passar do tempo, não havia nem mais gente na recepção dos lugares pra dar satisfação sobre a disponibilidade de quartos. Meia-noite, muitos já estampavam placas de "cerrado" nas portas. Em penúltimo caso, dormiríamos em barraca. Em último caso, no carro. Optamos, então, pelo penúltimo. O frio até que não tava tão foda, oscilando ali entre 6 e 8 graus, segundo o termômetro do carro. Paramos num posto e, após um lanche, Vitão trocou ideia com um funcionário que indicou que poderíamos armar a barraca no estacionamento deles, ao lado do posto. Fechadaço! As meninas no carro, enquanto eu e Vitorino armamos o coreto. Era quinze pras três da matina, quando finalmente nos vimos dentro da barraca, cada um no seu casulo, lutando pra não amanhecer congelado. Fadigados, mas realizados.

 [enfim, Ushuaia!]

Hasta pronto!

Cabeça

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Dados de Bordo
Km rodados: 577
Abastecimentos: 1
Gastos com abastecimento: 200,00 pesos (~R$ 80,00) em Río Gallegos

Estrada
Sempre pela Ruta 3, que é a principal que liga a capital a patagônia do lado do atlântico. Estrada em excelente estado, com fluxo baixo de veículos. Sem pedágios. No trecho chileno, pelas Ruta 255 e 257, a condição é muito boa com asfalto impecável e bem sinalizado

Hospedagem
Acampamos na rua. Custo zero, mas sem estrutura.

Alimentação
Almoço em Cerro Sombrero: 330 pesos pros quatro (~R$ 132,00) - Cordeiro patagônico, com purê e suco.
Janta em Ushuaia: 81 pesos (~R$ 32,00)  - lanche no YPF. 

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